A política brasileira atravessa um momento que vai além da polarização tradicional. O que se observa não é apenas divergência ideológica, mas uma transformação mais profunda no comportamento social e na forma como valores fundamentais vêm sendo reinterpretados — ou distorcidos.
Um dos fenômenos mais preocupantes é a crescente normalização de discursos misóginos e violentos no debate público. Falas que antes seriam amplamente repudiadas passam a ser relativizadas ou até defendidas sob o argumento de “liberdade de expressão”. Nesse cenário, parte do eleitorado não apenas tolera tais posturas, como as legitima politicamente, criando um ambiente em que o limite entre opinião e violência simbólica se torna cada vez mais difuso.
Esse processo se torna ainda mais complexo quando associado à tentativa de apropriação seletiva da religião, especialmente do cristianismo. Há um esforço visível de dissociar valores centrais da tradição cristã — como empatia, solidariedade, acolhimento e justiça social — para acomodá-los a projetos políticos específicos. Cria-se, assim, uma versão instrumentalizada da fé, que muitas vezes contrasta frontalmente com os próprios ensinamentos que afirma defender. Não se trata de discutir religião na política, mas de questionar o uso distorcido de seus princípios como ferramenta de legitimação ideológica.
As redes sociais desempenham papel central nesse cenário. Elas não apenas amplificam discursos, mas moldam percepções. O algoritmo privilegia o conteúdo que gera engajamento — e, frequentemente, o que causa indignação, medo ou raiva. Isso contribui para a formação de bolhas informacionais, onde o contraditório é reduzido e narrativas simplificadas ganham força. Nesse ambiente, a complexidade dos temas políticos cede lugar a slogans, e a reflexão é substituída por reações imediatas.
Outro aspecto relevante é o aumento do apoio a propostas e figuras políticas que contrariam direitos sociais e trabalhistas historicamente conquistados. Direitos que surgiram de décadas de luta — como jornada limitada, descanso semanal, proteção contra abusos — passam a ser vistos por alguns como entraves ao crescimento econômico. Paradoxalmente, muitos dos que defendem sua flexibilização são justamente aqueles que se beneficiam dessas garantias no cotidiano.
Essa mudança de percepção dialoga com um fenômeno contemporâneo: o chamado “mito do empreendedorismo”. A ideia de que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual, ignorando desigualdades estruturais, tem ganhado força. Trabalhar até a exaustão passa a ser romantizado como virtude, enquanto condições dignas de trabalho são tratadas como privilégios indevidos. Nesse contexto, a precarização deixa de ser problema coletivo e passa a ser interpretada como falha individual.
O resultado é uma inversão de valores: direitos passam a ser vistos como obstáculos, e a exploração, como oportunidade. A lógica meritocrática, quando descolada da realidade social, torna-se um discurso conveniente para justificar desigualdades profundas.
Diante desse cenário, o papel do eleitor se torna ainda mais decisivo. Mais do que escolher representantes, é necessário refletir criticamente sobre os valores que estão sendo defendidos — e sobre as consequências dessas escolhas para a sociedade como um todo. A política não é apenas um campo de disputa de poder, mas um espaço de construção coletiva de futuro.
Resgatar o debate qualificado, reconectar princípios éticos com práticas políticas e compreender o impacto das novas dinâmicas digitais são desafios urgentes. Caso contrário, corre-se o risco de naturalizar um ambiente onde direitos são fragilizados, a dignidade é relativizada e o próprio sentido de coletividade se perde.
André Luis Rufino, é advogado e mestrando em Política Social pela UFMT.
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