Áudios da PF colocam empresas investigadas em MT no centro de esquema nacional de consignados

Áudios da PF colocam empresas investigadas em MT no centro de esquema nacional de consignados REPRODUÇÃO

As investigações da Polícia Federal sobre um suposto esquema nacional envolvendo operações de crédito consignado colocaram Mato Grosso no centro da apuração após o surgimento do nome da empresa Capital Consig em interceptações telefônicas divulgadas pelo portal UOL. O material, segundo sindicatos que representam servidores estaduais, confirma denúncias que já haviam sido levadas à Justiça em Mato Grosso meses antes da repercussão nacional do caso.

A Federação dos Servidores Públicos de Mato Grosso (FESSP-MT) e outros seis sindicatos sustentam que as fraudes envolvendo descontos indevidos nos contracheques já eram alvo de uma Ação Civil Pública movida na Justiça estadual. O processo resultou na retenção de valores ligados às empresas investigadas e também na suspensão de descontos considerados ilegais nas folhas salariais de servidores.

O novo elemento apresentado pelas investigações federais é a menção direta à Capital Consig em diálogos interceptados pela Polícia Federal durante a apuração do esquema. Em uma das conversas transcritas no inquérito, um operador orienta um funcionário da fintech Cartos sobre a separação de CPFs ligados às operações investigadas.

“Consegue excluir aqueles da Cartos e da Capital Consig? Acho que ficam 116, né?”, diz o trecho atribuído aos investigados.

Para o escritório AFG & Taques, responsável pela defesa das entidades sindicais, a gravação fortalece a tese já apresentada no processo coletivo em Mato Grosso de que Capital Consig e Cartos atuariam de forma interligada nas operações de crédito consignado.

Relatórios produzidos pela força-tarefa criada pelo Governo de Mato Grosso para investigar práticas abusivas em consignados apontaram, ainda em 2025, que entre 50% e 54,3% dos contratos atribuídos à Capital Consig tinham, na prática, a fintech Cartos como credora vinculada às operações.

Diante da repercussão das investigações federais, os advogados protocolaram uma manifestação complementar na Vara Especializada em Ações Coletivas de Cuiabá pedindo o compartilhamento das provas produzidas pela Polícia Federal no Inquérito Policial nº 2025.0078640-SR/PF/MT.

A intenção da defesa é demonstrar à Justiça estadual que o caso investigado em Mato Grosso não se trata de episódios isolados, mas sim de uma estrutura considerada mais ampla e articulada.

As empresas investigadas tentavam suspender a tramitação da ação coletiva utilizando como argumento o Tema 1.414 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ligado a discussões sobre falhas em relações de consumo. No entanto, segundo o escritório responsável pela ação, o surgimento dos áudios reforça a tese de fraude sistêmica e enfraquece qualquer tentativa de paralisação do processo.

Os advogados Pedro Taques e Murilo Gonçalves afirmam que as investigações demonstram a necessidade de manutenção da ação coletiva para proteger os servidores atingidos pelos descontos.

“Não estamos discutindo um simples problema contratual. As investigações apontam para uma atuação articulada que atinge diretamente o salário do servidor público. As provas divulgadas pela Polícia Federal reforçam exatamente aquilo que já vinha sendo denunciado na Justiça de Mato Grosso”, afirmaram.