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Bastam alguns minutos navegando pelo LinkedIn para encontrar relatos de pessoas com currículos sólidos e anos de experiência reclamando da dificuldade em se recolocar. São histórias sobre feedbacks automatizados, processos seletivos impessoais, currículos barrados por filtros e a sensação de enviar dezenas de candidaturas sem retorno.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o Brasil registrou a menor taxa de desocupação da série histórica no trimestre encerrado em fevereiro, de 5,8%. O índice considera pessoas sem emprego que buscaram ativamente uma vaga nos últimos 30 dias.
Essa estatística, porém, não se reflete integralmente na percepção de quem está procurando trabalho. Pesquisa da FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), divulgada na primeira quinzena de junho, revela que 51,2% dos entrevistados consideram difícil ou muito difícil conseguir emprego atualmente no país, enquanto apenas 25,5% avaliam que está fácil ou muito fácil encontrar uma vaga.
O dado revela um paradoxo: embora a percepção de dificuldade ainda predomine, esse é o menor percentual de pessimismo desde o início da série histórica da pesquisa, iniciada em julho de 2025. Ao mesmo tempo, o grupo que considera ser fácil conseguir trabalho atingiu o maior patamar já registrado pelo levantamento.
Entre algoritmos e silêncios
Para o jornalista Luís Felipe Coca, 31 anos, que tenta se reposicionar na área de UX Writing após investir em formação técnica, a sensação é de frustração diante de processos cada vez mais automatizados.
"Venho buscando reposicionamento na área do UX Writing, meu objetivo principal, há quatro anos, e a dificuldade na qual mais esbarro é a falta de devolutivas. Eu valorizo muito o momento da entrevista por conta da relação entre entrevistador e entrevistado, onde sinto que, no meu caso, posso demonstrar de uma forma mais profunda a minha capacidade", afirma.
Assim como outros profissionais, Coca percebeu que o recrutamento, antes conduzido de forma mais pessoal, passou a incorporar ferramentas de inteligência artificial, exigindo adaptações no currículo, no perfil profissional e até na forma de apresentar a própria trajetória. Diante dessa realidade, passou a utilizar palavras-chave alinhadas às vagas, relacionar experiências anteriores às competências exigidas pela área e investir em networking.
"É muito difícil você encontrar uma vaga legal, se candidatar e acabar se deparando com uma mensagem artificial de que você não foi aprovado, sem realmente estabelecer uma comunicação orgânica com a empresa", relata.
No caso dele, houve ainda um fator pouco visível aos olhos dos recrutadores: uma pausa na carreira para cuidar de familiares que adoeceram. O período dedicado ao cuidado acabou criando um hiato profissional que, visto apenas no currículo, pode ser interpretado sem o contexto necessário.
Segundo Coca, os anos dedicados à família coincidiram com a tentativa de migrar de carreira e ajudam a explicar uma trajetória que, analisada apenas pelas datas, pode transmitir uma impressão equivocada sobre ele.
A experiência expõe uma realidade pouco discutida nos processos seletivos: nem toda interrupção profissional representa falta de interesse, desatualização ou ausência de comprometimento. Muitas vezes, ela reflete circunstâncias pessoais complexas que não cabem em uma linha do tempo no currículo.
Quando a ficção encontra a realidade
A dificuldade de profissionais qualificados em conseguir trabalho não parece ser exclusividade do Brasil. O tema também aparece na cultura pop, como no longa-metragem sul-coreano *A Única Saída* (2025), dirigido por Park Chan-wook.
O filme acompanha Man-Su (Lee Byung-hun), um homem de meia-idade que perde o emprego após 25 anos dedicados à mesma empresa. Desesperado para voltar ao mercado, ele decide eliminar, literalmente, a concorrência, transformando-se em um assassino.
Embora a sátira leve a situação ao absurdo, ela traduz uma ansiedade reconhecível por muitos trabalhadores: a sensação de impotência diante de processos seletivos cada vez mais opacos, competitivos e distantes do contato humano.
Estratégias para voltar ao mercado
Voltando à realidade, onde a concorrência não pode ser eliminada nesses termos, profissionais em busca de recolocação têm recorrido a cursos e estratégias para se adaptar aos novos modelos de contratação. Revisar o currículo com foco em palavras-chave, fortalecer a presença no LinkedIn, ampliar a rede de contatos e aprender a conduzir entrevistas com mais segurança estão entre as medidas adotadas para aumentar as chances de retorno ao mercado.
Para quem está enfrentando esse processo, há iniciativas gratuitas de apoio à empregabilidade. A plataforma Escola de Pessoas disponibiliza o curso “Empregabilidade: estratégias práticas para recolocação profissional", voltado especialmente para pessoas recém-desligadas e profissionais em transição de carreira.
Com duração de 1h30 e certificado de conclusão, o conteúdo aborda temas como construção da narrativa profissional, elaboração de currículos otimizados para sistemas de triagem automatizada (ATS), fortalecimento do perfil no LinkedIn, networking e preparação para entrevistas. O curso também propõe um plano de ação prático para ajudar candidatos a retomarem o protagonismo da própria trajetória profissional.
Preparar-se para essa nova era das contratações pode ajudar a transformar períodos de incerteza em novas possibilidades de reinvenção profissional e a lembrar que uma negativa nem sempre define o valor de um candidato, mas muitas vezes reflete a forma como sua trajetória é traduzida para as regras do mercado atual. Afinal, por trás de cada currículo existe uma história, que nem sempre cabe em palavras-chave, filtros automatizados ou respostas padronizadas.
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