REPRODUÇÃO
O julgamento do empresário Carlos Alberto Gomes Bezerra, o "Carlinhos Bezerra", começou nesta sexta-feira (31) no Fórum de Cuiabá com um depoimento contundente da acusação.
O delegado Marcel Gomes de Oliveira, responsável pelas investigações na época do crime, revelou ao Tribunal do Júri que o réu monitorava a ex-companheira Thays Machado detalhadamente por meio de rastreadores GPS. Oliveira, que hoje atua na Procuradoria-Geral de Justiça, detalhou que os policiais da DHPP descobriram um quarto na casa do empresário usado exclusivamente como escritório para organizar a perseguição sistemática (stalking).
As provas confirmam que Bezerra mapeava os deslocamentos de Thays meses antes de executá-la junto com o namorado, William Moreno.
No local, foram apreendidas anotações escritas a próprio punho pelo acusado, registros de geolocalização, equipamentos de rastreamento, aparelhos de GPS e documentos com informações sobre supermercados, pet shops, escola da filha de Thays, clínicas médicas, visitas a familiares, curso de idiomas e outros locais frequentados por ela.
Conforme o depoimento, Carlinhos registrava detalhes da rotina da ex-companheira, com anotações como o horário em que ela saía de casa, o tempo em que permanecia parada em determinado local e até quando utilizava o telefone celular. O delegado relata que, em uma dessas ocasiões, 17 dias antes do crime, Thays saiu de casa por volta das 22h para passar o réveillon em algum lugar da cidade quando, em determinado momento, percebeu que ele a perseguia.
Na sequência, Carlinhos enviou mensagens a Thays questionando para onde ela estava indo, com quem conversava e exigia que atendesse ligações por vídeo. “Atende o telefone, porra, não ta vendo que eu tô te ligando? [...] Enquanto você está visualizando a mensagem, tá conversando com quem? [...] Atende de vídeo”, ordenava ele.
Para o delegado, o conjunto de provas demonstra que o duplo homicídio foi premeditado já que, além da perseguição, as investigações comprovaram que a arma de Carlinhos já estava pronta para uso. Ainda conforme Marcel, na madrugada do crime, familiares relataram que Thays foi seguida por Carlinhos em um Renault Kwid bege. Horas depois, o acusado parou em frente a ex e o namorado dela e efetuou diversos disparos. Thays foi atingida pelas costas, enquanto William tentou fugir, mas acabou baleado na parte frontal do corpo e morreu cerca de 30 metros adiante.
O delegado contou ainda que Carlinhos foi localizado poucas horas depois em uma fazenda da família, em Campo Verde (a 133 km de Cuiabá). No momento da abordagem, ele entregou espontaneamente a pistola calibre .380 utilizada no crime e os aparelhos celulares que portava, sendo preso em flagrante. Em depoimento, confessou os assassinatos, mas optou por permanecer em silêncio sobre a motivação.
Defesa tentou novo adiamento
Antes do início da fase de depoimentos, a defesa de Carlinhos Bezerra tentou, pela segunda vez, adiar o julgamento. Os advogados alegaram supostas irregularidades processuais, questionaram o estado de saúde do réu e levantaram dúvidas sobre o isolamento das testemunhas. Todos os pedidos foram rejeitados pela juíza Mônica Perri, que considerou não haver qualquer fato novo que justificasse a suspensão da sessão e manteve o Tribunal do Júri.
Segundo a magistrada, o laudo médico da unidade prisional atestou que o réu estava apto para participar do julgamento, enquanto as testemunhas permaneceram acompanhadas por um oficial de Justiça durante toda a sessão, conforme determina a rotina do Tribunal do Júri.
O crime
O assassinato de Thays Machado e Willian Moreno ocorreu em 18 de janeiro de 2023, em frente ao Edifício Solar Monet, no bairro Consil, em Cuiabá. O casal foi morto a tiros por Carlinhos Bezerra, filho do ex-governador e ex-deputado federal Carlos Bezerra (MDB).
Carlinhos manteve um relacionamento com Thays por dois anos e não aceitava o fim da relação. As investigações apontaram que, antes do duplo homicídio, Carlinhos monitorava a ex-namorada e mantinha informações detalhadas sobre seus deslocamentos.
Ao todo, foram encontrados 71 registros de localização de lugares frequentados pela vítima. Ele fazia o download desses dados no celular e, posteriormente, os imprimia. Além disso, os programas de monitoramento teriam sido instalados ainda durante o relacionamento. Thays já havia registrado boletim de ocorrência contra Carlinhos.
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