O primeiro emprego em gerações passadas foi um desafio enorme, pelo fato da maioria da população brasileira ter um recesso econômico, taxa de desemprego elevada, alto índice de inflação, crise de dívida externa e outras barreiras. O primeiro emprego começava geralmente dentro de casa, a grande maioria dos idosos nos dias atuais contam suas histórias muitas vezes tristes porem belas, que se iniciava dentro de casa como de costume nas famílias tradicionais, os filhos eram praticamente obrigados a ajudar os seus respectivos genitores, seja na limpeza, na cozinha ou até mesmo no comércio. A grande culpa é pelo fato da frouxidão da legislação que naquela época não tinha eficácia perante a criança e o adolescente? Ou os jovens eram explorados pelos seus genitores?
A imagem do jovem dos anos 80, que abandonava os bancos escolares para "ajudar em casa" ou aprender um ofício no comércio do bairro, é frequentemente pintada com as cores da nostalgia ou do sacrifício. No entanto, sob a ótica da justiça social, esse cenário não era uma escolha, mas um sintoma de um Brasil que moía infâncias em nome da sobrevivência imediata. Hoje, quatro décadas depois, a "frouxidão" legislativa deu lugar a proteções necessárias através do (ECA 1990), mas o mercado de trabalho criou novas barreiras, talvez ainda mais cruéis por serem invisíveis.
Com e evolução econômica e respetivamente da educação a grande crítica que precisamos fazer é sobre a ilusão da qualificação. Se no passado a barreira era a ausência física da escola, hoje o obstáculo é a profundidade do que se aprende nela. Vivemos um fenômeno de "estratificação educacional": enquanto os jovens das classes favorecidas acumulam certificados, idiomas e redes de contatos, o jovem da periferia cujos pais lutaram para que ele "apenas estudasse" entrega-se a um mercado que exige experiência técnica de quem nunca teve o primeiro acesso.
Essa geração que muitos rotulam injustamente de "nem-nem", é, na verdade, vítima de um descompasso estrutural. O setor produtivo atual não tem mais espaço para o trabalho braçal de outrora, mas o Estado brasileiro também não logrou êxito em transformar a escola pública em um verdadeiro passaporte para o mercado tecnológico e especializado. O resultado é um limbo produtivo: o jovem não quer (e não deve) ser explorado como seus ancestrais foram, mas não encontra as pontas que ligam o diploma ao primeiro registro em carteira.
A educação só será o poder de transformação mencionado pelos otimistas quando deixar de ser um artigo de luxo mascarado de direito básico. Sem uma política de inserção técnica real e incentivo ao primeiro emprego que considere a desigualdade de origem, continuaremos assistindo a jovens qualificados no papel, mas desempregados na prática, enquanto o ciclo de pobreza apenas troca de roupagem, de década em década.
Embora o Brasil tenha chegado em 2025 com a menor taxa de desemprego da história que é 5,6 % pesquisa do IBGE. Os jovens entre 18 a 24 anos apontam que de 1 a 4 enfrentam o desemprego ou desalento. Fica então o ditado popular “nem-nem” nem estudam, nem trabalham com o descompasso entre o que aprende nas escolas/universidades e o que o mercado exige.
Quando se trata do jovem da periferia a barreira é dupla, enquanto o mercado exige habilidade em tecnologia e software avançados, a grande maioria tem acesso limitado a cursos e equipamentos de ponta, que são exigidos para o funcionamento destes respectivos softwares, cursos técnicos superficiais, o que empurram para o desemprego por acreditar que não tem espaço no mercado de trabalho formal, abre uma lacuna gigantesca para a informalidade ou até mesmo a criminalidade.
Nos dias atuais com estratégias de sobrevivência muitos confundem a informalidade com empreendedorismo, jovens tornam-se “parceiros” de aplicativos de trabalho imediato, sem direitos, sem progressão e com alto risco físico ou até mesmo por vagas que não exigem qualificação técnica, aceitando salários que mal cobrem custos básicos, transporte, luz, energia e alimentação dando aquele sentimento que trabalhar não compensa.
A criminalidade assiste de camarote estes vácuos deixados pelo setor privado e mais ainda pelo Estado, onde o crachá de uma empresa não chega, o crime oferece um status e um papel social, os jovens vendo seus avôs/pais trabalharem décadas sem conseguir muito progresso, o crime apresenta carreiras de alto risco, mas com retorno imediato que o mercado formal nega. Sem carteira assinada, sem qualificação real, sem previdência e currículo estável, jovens se tornarão adultos ainda mais vulneráveis. Investimentos em segurança publica avança e a educação descansa, essa é a triste realidade para o futuro dos mato-grossenses.
O Estado e o setor privado precisam se unir para combater o crime organizado de forma inteligente. Em vez de investir fortunas apenas em equipamentos de segurança pública e em infraestruturas que atendem a interesses ocultos, o Estado deve antecipar-se com investimentos massivos em tecnologia e educação de ponta. Não se trata apenas de reformar a estrutura física das escolas, mas de levar cursos técnicos e laboratórios de ponta para dentro das comunidades. É inaceitável que a qualificação específica e o acesso a ferramentas modernas sejam privilégios de universidades privadas, dificultando o acesso dos jovens periféricos justamente os mais vulneráveis. Sem democratizar o 'hardware' e o 'software' do futuro, continuaremos combatendo os sintomas, enquanto a causa da exclusão permanece intacta.
Glauber Arruda Engenheiro Civil e Cientista Politico
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