Mato Grosso ostenta, com orgulho, o título de "celeiro do mundo". Entretanto, enquanto a tecnologia no campo avança a passos largos, o cenário político parece ancorado em práticas que remontam a séculos passados. O que vemos hoje é uma tensão crescente: de um lado, uma sociedade exausta que clama por renovação; do outro, uma engrenagem política que apenas troca as figuras no tabuleiro para manter o mesmo jogo de sempre.
A grande armadilha da nossa democracia regional é a falsa novidade. Frequentemente, surgem lideranças com discursos de ruptura que, ao conquistarem o espaço público, cedem à continuidade das práticas arcaicas. O objetivo de elevar a sociedade é rapidamente substituído pela ambição de perpetuação pessoal no poder. O resultado é um ciclo vicioso onde quem deveria inovar acaba se corrompendo ou se distraindo com as facilidades do sistema.
Essa distorção fica evidente nos sucessivos escândalos que estampam as manchetes. Recentemente, operações como a Fake Export, Suserano e Emenda Oculta revelaram esquemas sofisticados de fraudes em exportações de grãos e desvios em licitações que citam parlamentares da Assembleia Legislativa. São milhões que deixam de equipar hospitais e escolas para alimentar a ganância de quem deveria zelar pelo bem comum.
A única luz no fim deste túnel tem sido a crescente eficiência dos órgãos de controle. O trabalho conjunto entre a Delegacia Fazendária (Defaz), o Ministério Público (MPMT) e o Tribunal de Contas (TCE) tem permitido que as irregularidades venham à tona com mais rapidez. Em 2025, o bloqueio de ativos financeiros de criminosos bateu recordes históricos, o que renova a esperança do contribuinte de bem.
Contudo, a fiscalização punitiva, embora essencial, é apenas metade da solução. A renovação eficaz exige critério do eleitor. É preciso separar quem usa a política como carreira de benefícios próprios daqueles que, mesmo com longevidade na vida pública, mantiveram sua integridade e continuam contribuindo para o desenvolvimento do estado.
A experiência não deve ser confundida com o vício, ela é, na verdade, a prova de fogo de quem atravessou o sistema sem se contaminar. Quando acompanhada pela ética, é mais seguro confiar em quem já foi testado pelo poder e manteve-se íntegro do que apostar em rostos novos de posturas desconhecidas. A verdadeira colheita que o estado espera não é apenas de grãos, mas de dignidade pública. O sucesso econômico de Mato Grosso não pode ser um fenômeno isolado do campo, ele precisa avançar no desenvolvimento urbano e na verticalização industrial, ou evoluímos nossa consciência política para o mesmo nível de nossa excelência produtiva, ou continuaremos sendo um gigante econômico governado por práticas anãs.
Glauber Arruda é Engenheiro Civil e Jornalista
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