Entre o plenário e o feed: o que a política brasileira revela — e o que muitos insistem em não ver

Entre o plenário e o feed: o que a política brasileira revela — e o que muitos insistem em não ver

A política brasileira, vista de perto, é bem diferente daquela que aparece nos recortes rápidos das redes sociais. Digo isso não como espectador, mas como alguém que vive esse ambiente diariamente, acompanhando sessões plenárias, debates acalorados, articulações e, muitas vezes, contradições que dificilmente cabem em um vídeo de poucos segundos.
No plenário, a política não é um meme. Ela é feita de falas, decisões e posicionamentos que têm consequências reais. E é justamente nesse espaço que tenho visto, com preocupação crescente, a naturalização de discursos que, até pouco tempo atrás, causariam indignação quase unânime. Falas misóginas, agressivas, desrespeitosas — muitas vezes disfarçadas de “opinião firme” — passam a ser relativizadas ou até defendidas fora dali, principalmente nas redes.
O que mais chama atenção é o descompasso entre a realidade e a percepção. Enquanto dentro das casas legislativas se discute — ainda que com divergências — o impacto concreto de políticas públicas, fora delas o debate parece cada vez mais superficial, guiado por narrativas prontas e recortes descontextualizados. Quem acompanha apenas pelas redes sociais tende a enxergar personagens, não processos.
Outro ponto que salta aos olhos, especialmente para quem acompanha a política de dentro, é o uso seletivo da religião no discurso político. Já presenciei, mais de uma vez, parlamentares evocando valores cristãos para justificar posicionamentos que, na prática, pouco dialogam com princípios básicos como empatia, acolhimento e justiça social. Não se trata de discutir fé — que é legítima —, mas de perceber quando ela é instrumentalizada para reforçar discursos que, muitas vezes, caminham na direção oposta ao que afirmam representar.
E há ainda um fenômeno que, sinceramente, causa certa perplexidade: o aumento do apoio popular a propostas que fragilizam direitos sociais e trabalhistas. Direitos que não surgiram por acaso, mas como resultado de décadas de luta, negociação e, muitas vezes, sofrimento. No cotidiano do trabalho legislativo, é comum ver discussões técnicas sobre esses direitos, seus impactos e limites. Mas, fora dali, cresce uma narrativa de que tais garantias são obstáculos — como se condições mínimas de dignidade fossem excessos.
Isso dialoga diretamente com outra ideia que ganhou força nos últimos anos: a romantização do empreendedorismo a qualquer custo. A noção de que basta esforço individual para superar qualquer barreira ignora, de forma conveniente, as desigualdades estruturais que marcam a sociedade brasileira. No discurso, trabalhar até a exaustão virou sinônimo de mérito; na prática, muitas vezes é apenas sinal de um sistema que normaliza a precarização.
E talvez aqui esteja uma das maiores distorções do nosso tempo: a transformação de problemas coletivos em responsabilidades individuais. Se alguém não “venceu”, a culpa é dele — nunca das condições que o cercam. É uma lógica que, além de simplista, serve para deslegitimar a própria ideia de direitos.
A experiência no dia a dia do parlamento mostra que a política é complexa, cheia de nuances, limites e contradições. Não há soluções fáceis, nem respostas prontas. Por isso, causa preocupação ver o debate público cada vez mais reduzido a extremos, onde o diálogo perde espaço para o confronto e a reflexão cede lugar à reação.
Talvez o maior desafio hoje não seja apenas escolher representantes, mas recuperar a capacidade de compreender a política para além das aparências. Entender que aquilo que acontece no plenário não é espetáculo — é decisão. E que decisões, ao contrário de posts, não podem ser desfeitas com um simples deslizar de tela.
Entre o plenário e o feed, há uma distância que precisa ser encurtada. E isso começa com algo simples, mas cada vez mais raro: disposição para ouvir, questionar e pensar criticamente.


André Luis Rufino, é advogado, professor universitário, Pós Graduado em Direito Eleitoral, Direito Penal e Mestrando em Política Social pela UFMT.