Muitos limitam o conceito de democracia ao rito eleitoral: o dia de votar, ser votado e o direito de apresentar propostas sob o pluripartidarismo. No entanto, em seu sentido mais amplo, a democracia só respira quando direitos humanos são cumpridos e políticas sociais saem do papel. Sem isso, temos apenas uma estrutura formal vazia.
O escritor chileno Ariel Dorfman traz uma visão necessária: “a democracia só existe quando a lei é igual para todos. No momento em que ela favorece o rico contra o pobre, o militar contra o civil ou a multinacional contra o nacional, vive-se uma "semidemocracia"”. Essa disparidade gera uma insatisfação profunda; afinal, a impunidade dos poderosos acaba por validar o crime como opção para os menos favorecidos.
Enquanto a responsabilização por abusos e corrupção não for efetiva, o ditado popular “rico não vai preso” continuará sendo o epitáfio da nossa justiça. Sem punição real, a democracia é apenas tinta no papel.
Neste cenário, a participação dos jovens aptos a votar já aos 16 anos é o oxigênio do sistema. Mas não basta tirar o título; é preciso abrir a consciência para a pluralidade e para a construção de uma sociedade solidária. É urgente averiguar a conduta histórica dos candidatos. Na era das bolhas ideológicas, o que deve pesar não é a sigla, mas o desempenho e a coerência.
Muitos pregam a "renovação" no discurso, mas na prática repetem os vícios da velha política. Enquanto alguns buscam notoriedade em mesas de vinho e acordos de cúpula, boa parte dos mato-grossenses padecem em filas de terminais rodoviários, hospitais, ou até mesmo em fila de açougue em busca de ossos.
A democracia que precisamos é rígida na lei, plural nas ideias e necessária na prática. Façamos do voto não um fim, mas o começo de uma cobrança implacável.
Glauber Arruda é engenheiro civil e analista político
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