Rapaz, Cuiabá é um lugar abençoado quando o assunto é comédia política.
Basta a obra parar, o asfalto sumir e o morador voltar a fazer rali dentro do próprio bairro, que aparece logo uma explicação pronta. Desta vez, quem entrou em cena foi o secretário municipal de Infraestrutura, Reginaldo Teixeira, dizendo que o atraso nas obras é culpa da falta de repasses do governo federal.
Pronto. Foi o suficiente para o Mané Catraca puxar a cadeira, aproximar o café e pensar: começou mais um capítulo da novela “a culpa é do PT”.
Segundo a Prefeitura, mais de R$ 14,4 milhões em recursos federais ainda não chegaram, e isso travou obras em bairros como Residencial Coxipó 2ª etapa, Jockey Clube e Jardim Gramado. Tem obra quase pronta que não termina. Tem obra que mal começou. E tem morador que já olha para placa de serviço do mesmo jeito que olha para promessa de campanha: com desconfiança e um restinho de raiva.
No Jardim Gramado, por exemplo, a obra quase não saiu do lugar. No Jockey Clube, parou quando faltava muito pouco para terminar. No Coxipó 2ª etapa, a Prefeitura diz que boa parte foi feita, mas o restante ficou esperando o dinheiro aparecer. Traduzindo para a linguagem da rua: ficou no famoso “já já”, que na política costuma significar “sabe Deus”.
A parte engraçada começa quando a culpa ganha endereço certo. Quem resolveu colocar Lula nessa história foi o secretário. Foi ele quem empurrou a bronca para Brasília. Só que o Mané Catraca, que pode até rir, mas bobo nunca foi, sabe que esse discurso não nasce do nada. Ele aparece num ambiente em que bater em petista sempre deu palco, aplauso e pose de valentão.
Só que a vida real tem uma maldade própria: obra pública não anda na força do gogó.
Não adianta engrossar a voz, fazer cara feia para Brasília e posar de durão em entrevista. Rua não é rede social. Asfalto não cai do céu porque alguém falou grosso. E bairro largado no barro não melhora só porque acharam um inimigo político para culpar.
No fim, o povo assiste ao velho teatro brasileiro. Quando a obra anda, o mérito é da gestão. Quando a obra para, a culpa vai para o governo federal. Quando o dinheiro aparece, é competência. Quando não aparece, é perseguição. E assim a política vai tocando o berrante enquanto o morador segue pulando buraco.
E o morador, esse sim, vive a parte mais sincera dessa história. É ele quem quebra suspensão, pisa em poeira, enfrenta lama e ainda escuta explicação de gabinete como se explicação tapasse rua. O cidadão não quer saber onde o dinheiro travou, se foi no papel, no banco, no sistema, em Brasília ou no planeta Marte. O que ele quer é o básico: ver a máquina trabalhando e a obra saindo do lugar.
Agora, também não dá para engolir tudo sem mastigar. Uma coisa é a Prefeitura reclamar que o dinheiro federal não veio no ritmo esperado. Outra, bem diferente, é já transformar isso num roteiro pronto, com vilão escolhido antes mesmo de aparecer prova mais clara de que houve perseguição política. Na política, quando falta resposta, quase sempre sobra discurso.
No fim das contas, a cena é até engraçada, se não fosse o povo quem paga a conta.
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